Tensão e Flutuação

Cassio Lázaro veio de Minas Gerais, da cidade de Cássia para São Paulo e trouxe consigo o talento para a expressão plástica que o acompanha desde criança. De família humilde, um entre treze irmãos, desenhava com facilidade e precisão – ainda menino – as fisionomias que o cercavam. A vinda para a grande cidade, onde morou em pensões antes dos quinze anos, foi em busca de vida melhor que – a Arte seja bendita! – aconteceu por sua persistência e teimosia.

Mais forte que os desafios era sua crença na capacidade criativa a qual, com sagacidade, venceria um a um todos os obstáculos. Ainda hoje, no caos operativo de seu galpão atelier na zona leste da Capital – onde mora e trabalha – todos os dias nascem com o desafio de novos embates com o material, com o desvendar das muitas possibilidades do aço e de outros materiais.

Em todos os empregos que teve, incluindo o de bancário, o talento para as Artes falou mais alto. Elas deram-lhe a saída estratégica das profissões que exigiam educação formal, a escultura ofereceu-lhe o caminho para um ofício de “sangue, suor e …glórias”. Reconhecido em sua atividade? Ainda hoje, após anos de experiência, a cada dia com nova matéria a vergar sob a marreta, ele próprio e assistentes sempre na busca da ‘forma perfeita’. Reencontro Cassio no entusiasmo de seu trabalho, cerca de três décadas depois de tê-lo conhecido e escrito sobre sua obra escultórica pela primeira vez. Concordo com o que me diz, que seu trabalho amadureceu.

Querer classificá-lo nesta ou naquela escola é fugaz. Ele consegue reelaborar aspectos e condições da escultura atual sem frequentar academias ou ler compêndios de arte contemporânea. Seu lema é trabalhar disciplinadamente dia após dia, como um operário que forja o bronze e o aço – carbono ou Corten – suas principais matérias primas. Vive e produz até hoje no mesmo lugar, na mesma batida, na mesma saga heroica.

Sua produção desenvolve-se geralmente em séries, que podem ter o mesmo impulso, a mesma motivação, mas oferecem múltiplos resultados. Certa vez presenteou-me com uma árvore cuja copa simulava um globo terrestre. A figura era então seu desafio. Foi em outra série ampla que desenvolveu os ‘Amassados’, referência aos papéis inutilizados num gesto automático, descartados em sua época de escriturário.

A delicadeza das tramas, arrancada dos metais pesados, ele explorou na série que remete aos ‘bordados’, a presteza dos bilros e das técnicas das rendeiras reproduzidas em aço para longa durabilidade. Neste nosso tempo digital, de info-viabilidades, de multimeios e informações fora de controle, Lázaro nos apresenta esta série com título que propõe várias leituras > Tensão. Esta ‘tensão’ pode estar no encontro de materiais diferentes numa determinada situação, no contrapor de diferentes condições estéticas – formas orgânicas, artificiais, cinéticas – no embate hercúleo entre formas, cores, texturas ou ainda refletir a tensão que, indubitavelmente, vivemos em nosso cotidiano. Mas esta ‘tensão’ sugerida nas atuais esculturas de Cássio Lázaro aponta também para uma capacidade do homem de se reinventar, refazer, recriar, renascer nas condições mais adversas.

Ao contemplar estas peças relembro imediatamente os muitos talismãs de minha vida, muitos deles materializados em objetos de sentido raro – a kryptonita do SuperHomem, a Rozabud do Cidadão Kane – ou nas lições de forma, volumetria, superfícies que aprendi ao longo da vida com escultores de minha predileção – Constantin Brancusi, Henry Moore, Bruno Giorgi, Franz Weismann, Richard Serra.

O esmero na execução, o domínio entre a força e a delicadeza, a constante pesquisa formal aproximam a obra de Cassio daquela de grandes artistas da escultura, isto não só numa proximidade nos resultados obtidos, mas na fraternidade velada dos processos, na busca constante pela obra ideal, sua pedra filosofal. O conjunto que ele apresenta neste outono de 2015 é uma colheita de seus feitos, efeitos e defeitos (ele não se julga perfeito, ainda bem!) de sua produção da última década.

Há nestas esculturas uma maturação de meios e metas perseguidas cotidianamente, entre uma refeição morna e uma taça de vinho, entre uma vernissage e uma partida de futebol entre amigos. As esculturas que ele nos oferece nesta oportunidade merecem atenção e mergulho específico uma a uma, pois em cada forma, em cada ângulo, em cada profundidade revelam cores e protuberâncias, texturas, retas e curvas que sugerem pequenos abismos entre a dúvida e a certeza de uma beleza infinita. A obra de Cássio Lázaro não é pretensiosa e, por isso mesmo, garante-nos viagem atemporal pelas fabulosas possibilidades da Arte, entre a tensão e a flutuação.

 

PAULO KLEIN

Crítico, Consultor e Curador Artes Visuais Association Internationale Des Critiques D’Art

Associação Brasileira de Críticos de Arte

Associação Paulista de Críticos de Arte

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